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Cidade-fantasma volta a viver com cooperativa de crédito

 
13/08/2007
 

Na região da Serra da Canastra, onde nasce o rio São Franscisco, os habitantes de São Roque de Minas inverteram o rumo do seu futuro

Roselena Nicolau, texto
Clóvis Campos, fotos

Os sobrenomes se repetem com insistência nessa pequena cidade na região da Serra da Canastra, terra onde o rio São Francisco dá os primeiros sinais de vida. A mistura dos Faria, dos Leite, dos Soares ou dos Santos não deixa dúvidas da proximidade dessa gente que, acreditando na união, inverteu o rumo que deslumbrava um futuro minguado, escancarado na decadência do censo populacional. "Aqui ninguém queria ficar", lembra o fazendeiro Onésio da Costa Faria, 73 anos vividos em meio à lavoura. "Hoje, o povo sabe que não precisa sair se não quiser", resume o agricultor um sentimento comum entre os moradores.


O progresso aparece na agropecuária, no turismo e na
capacitação de adultos e crianças

Os habitantes de São Roque de Minas costumam dividir a história do município em antes e depois da Cooperativa de Crédito Rural, o motor das mudanças que impulsionou a economia local depois de um baque para o qual se acreditava não ter solução. No início da década passada, a única agência bancária ali existente, a MinasCaixa (um dos bancos estatais mineiros liquidados pelo Banco Central) fechou as portas. Não demorou muito para os reflexos dessa decisão governamental aparecerem. Todo o movimento bancário da cidade foi transferido para a vizinha Piumhi. Produtores rurais, queijeiros, aposentados, funcionários públicos e qualquer outro cidadão não tinham outra opção senão encarar os 64 quilômetros em estrada de terra que separava São Roque de Minas do serviço bancário.


Onésio lembra dos tempos difíceis...

"Estávamos predestinados a morar numa cidade fantasma", diz o agrônomo João Carlos Leite, o Joãozinho, de 37 anos, um dos filhos da terra que se formou em Lavras e retornou, em 1989, disposto a se enveredar no comércio e também a seguir a trajetória familiar do trabalho no campo. "Em 1960, tínhamos nove mil habitantes. Em 1990, éramos apenas seis mil", contabiliza, somando aos números negativos a difícil situação estrutural de onde nasceu. "A agricultura não tinha escala, era praticamente para subsistência, a luz não era padrão, o telefone dependia de uma telefonista de outra cidade e os jovens não queriam ficar", lembra. Com o banco longe, o pouco dinheiro que ali circulava sumiu e o comércio sentiu rapidamente o drama.


...que Joãozinho ajudou a transformar


Quem tinha o que receber ou o que gastar o fazia em Piumhi. "Foi uma depressão geral", destaca Joãozinho. "Com a saída do banco, deu uma decadência forte. O produtor que precisava de qualquer coisa tinha que ir pra fora. Se você vendia um gado e precisava de uma notinha, já ia pra Piumhi", lembra Onésio Faria. "A gente gastava um tempão na estrada de lá pra cá, de cá pra lá", emenda o também fazendeiro Joaquim de Souza Pereira, de 59 anos. A solução encontrada aconteceu meio por acaso. Sem saber ao certo o que pretendiam, um pequeno grupo de produtores, liderado por Joãozinho, foi atrás de informações sobre a Cooperativa de Crédito Rural de Iguatama e de Alpinópolis, cidades vizinhas.


O fazendeiro Joaquim e sua família

No contato, perceberam que poderiam criar uma cooperativa semelhante na própria cidade e partiram para reuniões com produtores. Conseguiram reunir 27 deles dispostos a investir na novidade. Em julho de 1991, o Banco Central autorizava a criação da Cooperativa de Crédito Rural de São Roque de Minas, a Saroncredi, inaugurada três meses depois numa sala emprestada pela prefeitura, utilizando móveis e poucas máquinas emprestados. "Não tínhamos nada, mas, se a pessoa quiser construir e tiver união, tudo dá certo", ensina um dos fundadores, José Dionísio Leite, de 64 anos. Além de fazendeiro, ele é dono, em sociedade com o ex-caminhoneiro Antônio Gualberto de Faria, do posto de gasolina Rio do Peixe, inaugurado há pouco mais de dois anos e sinônimo da existência de concorrência na cidade.


E os sócios José Dionísio e Antônio Gualberto

A força da mobilização dos moradores em torno da Saroncredi foi sentida logo no dia em que as portas foram abertas. Em 30 de outubro de l991, lembra Joãozinho, foi tanta gente depositar algum dinheiro que o "banco" teve que fechar mais cedo. "Nós não dávamos conta de atender o pessoal. Tínhamos contratado quatro pessoas e com dois dias estávamos contratando o quinto funcionário", diz ele, eleito presidente da Saroncredi, cargo que ocupa ainda hoje. "Tinha gente que tinha medo, mas depositava pelo menos um pouquinho. Para nós, não tinha outra saída. Ou o povo acreditava na cooperativa, ou todo mundo ia acabar se mudando", atesta.


Na região da Serra da Canastra, São Roque de Minas
renasceu com o cooperativismo

Os resultados financeiros positivos da Saroncredi estão espelhados na evolução do seu patrimônio líquido. Dois meses depois de inaugurada, no final daquele ano, a instituição fechava o balanço com R$4,5 mil. Cinco anos à frente, eram R$626 mil. No ano passado, as contas exibiam R$1,6 milhão e este ano a perspectiva é a da superação de R$2 milhões de patrimônio líquido. Os 27 produtores fundadores se transformaram em 2,9 mil, espalhados não só por São Roque de Minas mas também em quatro agências abertas em Vargem Bonita, São João Batista da Glória, Delfinópolis e Pratinha. Em setembro passado, as operações de crédito somaram R$5,5 milhões em várias carteiras (agrícola, comercial, cheque especial, desconto de cheque).


Onze anos devidamente comemorados

"Se tirar daqui o movimento da Saroncredi, a cidade acaba", atesta Onésio Faria, buscando na memória os tempos passados em São Roque de Minas. "Cheguei a ver isso aqui com quatro carros. Hoje, tem dia que tem confusão de tanta gente", diz ele, apontando o turismo, uma outra faceta do desenvolvimento do município, como uma causa que os moradores começam a adotar. A Cooperativa de Crédito Rural foi uma mola propulsora não só para acabar com os aborrecimentos da ausência de bancos. A Saroncredi, acreditam seus associados, conseguiu alterar o perfil da economia local, refletindo diretamente na mudança de parâmetros culturais.


O viveiro de mudas é o orgulho de Senezeomar,
que cuida das plantas há sete anos

Quando a instituição nasceu, as safras agrícolas colhidas em torno do município não tinham importância muito maior do que a de subsistência, afirma Joãozinho. Os fazendeiros plantavam de tudo um pouco, mas principalmente o milho. O único item de "exportação" de São Roque de Minas era o famoso queijo artesanal Canastra, quase todo levado para São Paulo - atualmente, os queijeiros passam por um processo de qualificação e adequação das normas de produção conforme lei estadual. A Cooperativa de Crédito Rural estimulou a produção agrícola, mas também a diversificação dela. "Em 1994, comprávamos milho. Hoje, produzimos mais de 200 mil sacas. A colheita que era feita na mão é agora feita por quatro colheitadeiras financiadas pela cooperativa", destaca ele. Porém a principal reviravolta aconteceu com a lavoura de café, praticamente inexistente nos primeiros anos da década passada.


O queijo da Canastra está sendo normatizado

"Sabíamos que a monocultura do milho não era adequada e investimos no café", conta Joãozinho. Por meio da Fundação Saroncredi, criada poucos anos depois da cooperativa de crédito, os fazendeiros receberam mudas de café, adquiridas na base do empréstimo - para cada 10 mil mudas, o agricultor teria que devolver na colheita seis sacos de café. Quem emprestou o dinheiro para a produção das mudas foi Onésio Freitas. "Nós evoluímos, todo mundo se desenvolveu e agora o que mantém o município é a lavoura de café", diz ele. Em 1994, eram 350 mil pés de café plantados nas propriedades de São Roque de Minas. Atualmente, são 5 milhões de pés e a safra este ano foi de 45 mil sacas, garante o presidente da Saroncredi.


O interesse pelo reflorestamento cresceu

Processo semelhante está sendo feito com mudas de eucalipto. Um viveiro mantido pela cooperativa em parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF) vende, a custo muito baixo, mudas para os fazendeiros que quiserem reflorestar. Já foram plantadas 100 mil mudas de eucalipto e no viveiro estão outras três mil mudas ornamentais e de espécies nativas, doadas para plantio junto às margens dos rios e às nascentes. "Antes, a gente podia implorar para o fazendeiro buscar uma muda, mas ele tinha preguiça de plantar. Agora é diferente. Eles estão sempre buscando e dá para notar que o interesse mudou", afirma Senezeomar Soares de Faria, responsável pelo viveiro há sete anos.


José Donizete investe na qualidade do café

A Cooperativa de Crédito Rural estimulou e interferiu também na dinâmica de outras instituições, como na Cooperativa Agropecuária, no Sindicato Rural e na Associação Comercial, Industrial e Agropecuária. "O nosso crescimento seria o crescimento dos produtores, da cidade. Por isso, investimos em outras ações. Era uma questão de lógica", afirma Joãozinho. "Tínhamos que pensar no dali pra frente", ressalta José Dionísio Leite, certo de ter cumprido sua parte nessa empreitada e, por isso, candidato a pegar o próprio boné, deixando a composição do conselho da entidade este ano. "A gente tem que entender o que é. Quando foi para amassar o barro, eu tava lá. Agora não. Eu não tenho estudo e hoje o banco está precisando é de quem entende e eu tô muito longe desse conhecimento", afirma ele.


O Ellos forma crianças buscando ética, liderança,
liberdade, organização e solidariedade

José Dionísio Leite talvez não saiba, mas é tido por Joãozinho como uma espécie de filósofo da Saroncredi. Muito das realizações da cooperativa nasceu da sabedoria dele, transmitido na simplicidade do homem do campo. Foi dele, por exemplo, a preocupação com o nível educacional dos pequenos moradores de São Roque de Minas, visto especialmente como os futuros administradores da instituição. Ele também pôs a mão na massa quando investimentos precisavam ser feitos na Cooperativa Agropecuária, praticamente falida em 1997, com 27 títulos protestados. O fazendeiro conta que avalizou as compras da Cooperativa Agropecuária, para que ela pudesse voltar a vender para os produtores.


Leila quer dar às filhas o que não teve

As dificuldades ainda são listadas pelo técnico químico José Donizete de Faria, presidente da Cooperativa Agropecuária, mas estão longe, assegura ele, da situação aflitiva de quatro anos atrás. Com faturamento atual de R$3,8 milhões, a entidade pagou as dívidas e investe na qualidade das safras. Em sociedade com outras cooperativas, presta assistência aos fazendeiros e estimula o aprimoramento do plantio. No seu quadro de funcionários estão dois degustadores de café, que fazem a classificação dos grãos, garantindo ganhos justos aos produtores que antes não contavam com o serviço. "A produtividade aumentou muito", garante José Donizete.


O parque atrai turistas para a cidade, que já se
preocupa com a preservação ambiental

A qualificação dos fazendeiros, que passa pelo convencimento de adoção de técnicas e práticas modernas, é um processo lento, explica o presidente da Cooperativa Agropecuária, mas que vale a pena. "Só quando ele (fazendeiro) vê o que está acontecendo com o outro é que ele se convence", dita José Donizete. Para criar novas cabeças, assinala novamente o matuto José Dionísio Leite, é preciso reconhecer e enfrentar os limites, abarcando o novo e "empolgando" os que estão deixando o cueiro. Foi de preocupações como essas que nasceu a Cooperativa Educacional de São Roque de Minas, mantenedora do Instituto Ellos de Educação. Ao escrever Ellos, leia-se o emblema "ética, liderança, liberdade, organização e solidariedade", uma escola que tenta conquistar os moradores (na cidade, existem escolas municipal e estadual) oferecendo um programa de ensino diferenciado, seguindo o material pedagógico da rede privada curitibana Positivo.


Economia e meio ambiente têm mantido...

Em fevereiro de 1999, o Instituto Ellos começou trabalhando com crianças de quatro a seis anos e, atualmente, com 93 alunos, tem salas até a quinta série do ensino fundamental. "Não é fácil montar um projeto como este, mas é gratificante", diz a presidente da Cooperativa Educacional, Maria José Faria Leite. A intenção é, no próximo ano, inaugurar a sexta série, mas os planos dependem da capacidade da cooperativa de se enquadrar numa receita limitada. Os alunos pagam mensalidades de R$60, completadas pela cooperativa em mais R$40. A quantia significa muito para pessoas como a cantineira da escola, Leila da Costa Pereira Faria, de 36 anos. Apesar disso, o maior desejo dela tem-se realizado.


...uma parceria saudável em São Roque

"Eu não tive estudo, mas vou fazer de tudo para que as minhas filhas tenham", diz ela, mãe da pequena Leziane, aluna da primeira série do Instituto Ellos, e de Cíntia, de 15 anos, aluna da escola pública. Nas salas de aula, o tema cooperativismo está presente a todo momento, tanto quanto o destaque dado para questões ambientais, um assunto que mobiliza mais recentemente a comunidade de São Roque de Minas. Privilegiada pelo Parque Nacional da Canastra, uma área de mais de 70 mil hectares de vegetação nativa e onde se abriga a nascente do rio São Francisco, a população aproveita os bons frutos traduzidos pelo turismo ecológico e de aventura. "O Parque é hoje um ganha-pão da cidade. Mas nem sempre foi assim", ressalva Renilda Soares Dupim, de 43 anos, dona do Hotel Chapadão da Canastra.


Renilda investiu R$1 milhão no hotel

O investimento de Renilda na mais sofisticada hospedagem da cidade foi de quase R$1 mi-lhão. Até dois anos atrás, sua ocupação principal era a criação das três filhas. De lá para cá, o cenário é totalmente outro. Ela se tornou uma próspera empresária, administrando bem de pertinho o hotel, nascido da percepção de que o desenvolvimento de São Roque de Minas como atração turística é uma oportunidade enorme. Entretanto o apego da população à maior fonte de recurso turístico da cidade, o Parque Nacional da Serra da Canastra, é algo que ainda está sendo construído. A história da transformação da região, ocupada por fazendeiros até a década de 80, em área de preservação ambiental deixou lembranças amargas em muitas famílias, retiradas do local pela força de fuzis de militares.

O pai de Renilda era proprietário do terreno onde nasce o São Francisco. Como ele, muitos fazendeiros se opuseram à criação do Parque da Serra da Canastra por não concordarem com os valores ínfimos das indenizações. Ao resistirem, lembra a dona do Chapadão da Canastra, os fazendeiros sofreram horrores. "Por isso, muita gente na região nem nunca lá esteve. As histórias ainda estão presentes na cabeça de muitos", diz ela. Uma página que só começou a ser virada com o pagamento, nos últimos tempos, de indenizações reivindicadas em processos que rolaram mais de duas décadas nos emaranhados da Justiça. "Temos que trabalhar pela preservação do parque, porque sabemos que ele é a nossa galinha dos ovos de ouro", diz ela.


Os Canastras

Interesses econômicos e cuidados ambientais têm mantido, até então, uma parceria saudável em São Roque de Minas. Em torno do Parque Nacional da Serra da Canastra estão pequenos empresários que, assim como Renilda, dependem do cartão postal mais importante da região. Os Canastras, nome dado a uma turma de jovens empresários que explora o turismo de esportes radicais na cidade, não fogem ao lema. Balançando em pontes, descendo cachoeiras, explorando grutas, desafiando o rio em bóias, Os Canastras se esforçam tanto em incentivar a presença de turistas aventureiros que querem o máximo de adrenalina quanto em criar uma cultura de preservação entre os moradores, em especial entre as crianças. Como eles, diferentes organizações não-governamentais trabalham neste sentido na região.


Dionys quer estudar biologia e voltar

"Não estamos preocupados somente com os nossos negócios", garante o paulista Jones dos Santos Braga, de 28 anos, um dos cinco sócios de Os Canastras. Ele se fixou em São Roque de Minas e faz parte também dos Anjos da Canastra - fiscais colaboradores treinados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pela Polícia Militar Ambiental. Na missão do grupo, além de atuar vigiando a área e denunciando irregularidades, está o desenvolvimento de projetos de conscientização ambiental. Por isso, a prática de rapel e outros esportes radicais (permitidos fora do parque em áreas particulares) se comunga com participações em mutirões pela limpeza da bela serra, pelo plantio de mudas nativas, ou realizações de palestras e teatros para crianças.

"Mudar a cabeça de um adulto pode ser difícil, mas quando o papo é com crianças sempre dá resultado", pensa um outro componente de Os Canastras, Jean Pierre dos Santos, de 22 anos. Ao motivar a comunidade, as instituições conquistam pessoas como o menino Dionys Paulo da Silva, de 14 anos. Criado em fazendas e, mesmo tendo caminhado pelo Parque Nacional da Serra da Canastra apenas três vezes em toda a sua vida, Dionys tem pela região preservada um carinho especial. "Eu quero que aqui seja um lugar que todo mundo goste e possa aproveitar", diz ele, revelando o sonho de se formar biólogo. "Vou sair para estudar e volto para trabalhar", planeja.

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