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Texto para refletir

 
10/08/2005
 

De idéia a projeto real, como dar o salto quântico

Você tem um projeto ou uma idéia que vale realmente a pena? Então vá em frente, mas para chegar lá, não tem jeito: é preciso pensar nessas coisas chatas como orçamento e planejamento.

Daniela Castilho

Volta e meia um amigo me telefona para me contar sua mais recente idéia mirabolante para ficar rico. Não tenho nada contra idéias mirabolantes, conheço várias que deram certo, se transformaram em projetos viáveis, encontraram patrocinadores e foram realizadas. O problema não é com as idéias.

Idéias são ótimas. O problema é com a atitude das pessoas. Meu amigo - como vários outros amigos já fizeram - apenas me sugere ao telefone a beleza mística de sua idéia. Eu escuto até o fim - como sempre faço - e quanto ele termina de falar, começo a fazer perguntas com toda a calma:

- Já verificou tudo que é necessário para a execução da sua idéia?
- Já planejou como realizar essa idéia?
- Que expertises serão necessárias?
- Quantas pessoas serão necessárias na realização?
- Qual é o orçamento necessário para realizar essa idéia?
- Qual o cronograma necessário para concretizar o projeto?

Meu amigo, como todos os outros amigos antes dele (com raras exceções), suspira e interpreta as minhas perguntas como sendo "má-vontade" ou "incredulidade" minha e termina o telefonema dizendo "pense na minha idéia".

Interessante como algumas coisas ainda não mudaram no Brasil. Não é suficiente ter uma idéia e contá-la para as outras pessoas. Contar idéias é coisa de bate-papo de bar, em volta de garrafas de cerveja. Realizar idéias é muito diferente: é algo a se fazer com o computador, a calculadora e o telefone à mão, fazendo pesquisas, contatos, orçamentos, planejamentos. Não adianta ter uma idéia na mão e uma câmera na cabeça. Só isso não leva a lugar nenhum e o dono-da-idéia será mais um frustrado que irá dizer, nas rodas de bate-papo com cerveja, "puxa, eu tive uma idéia sensacional mas ninguém quis realizar".

Ontem quando eu voltava para casa passei por um outdoor que alardeava sobre um curso de "como abrir sua empresa" e uma faixa de rua que anunciava cursos de "empreendedorismo". O brasileiro PRECISA desses cursos. É interessante notar quantas pessoas abrem empresas sem nem saber quais impostos precisam ser pagos ou quais os custos mensais obrigatórios. Acham que empresas são "máquinas de emitir notas fiscais". É interessante perceber que as pessoas não têm a mínima noção de empreendedorismo.

Não é culpa delas, veja bem. O Brasil tem uma história de centenas de anos de pensamento e ideologia anti-empreendedorismo. Os primeiros estrangeiros que desembarcaram por aqui vieram explorar, pegar o máximo que pudessem, enfiar na bagagem e voltar para a casa deles, do outro lado do oceano. Nenhum deles queria se assentar e viver aqui, embora muitos tenham assentado e vivido por aqui o resto da vida. Os primeiros estrangeiros que vieram para o Brasil com a firme intenção de ficar morando por aqui foram os imigrantes pós-libertação dos escravos. Até então ou vinham para explorar e voltar para casa ou eram trazidos contra a vontade para ser escravo!

Com uma cultura tão tradicionalmente colonialista e escravagista, não me admira as pessoas ainda hoje não saberem nada de empreendedorismo. Fomos todos educados para ser funcionários, obedecer ordens e não ter opinião própria. Só recentemente as pessoas começaram a acordar para o problema: sem o tal "empreendedorismo" o país não vai a lugar nenhum, será sempre uma eterna monocultura de soja, laranja ou qualquer outro produto agrícola - como já foi monocultor de cana, algodão, café. Não sairemos da pré-história colonial sem empreendedorismo.

É por isso que eu sempre faço as tais perguntas que aborrecem meus amigos com suas idéias. Porque é preciso pensar em empreendimento, não apenas em idéia. Idéias todos têm. Nem 1% delas se transforma em um empreendimento viável.

Para fazer o salto quântico de uma idéia abstrata e sonhadora para um projeto em pleno andamento, é necessário pensar nessas coisas chatas como orçamento, planejamento, investidores, viabilidade de execução, necessidades logísticas e materiais. Todas essas palavras e conceitos de contadores, economistas e outros profissionais chatos.

O brasileiro não quer ter essas "profissões de chatos". Quer sempre ser "artista" e "artistas" não pensam em números e menos ainda em dinheiro. Artistas apenas têm idéias mirabolantes e criativas. E é por isso que no Brasil existem tantas idéias geniais e tão poucos projetos realizados.

O brasileiro precisa começar a deixar de ser só artista e começar a ser mais matemático, financista, economista. Porque não existe projeto concreto sem essas coisas. Por mais chatas que sejam, são elas que transformam sonhos em realidade.

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