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Banco de Curriculos

 

O Crédito Consignado, por Marcel Solimeo

 
03/07/2005
 

O Crédito Consignado
 

Dados divulgados pelo Banco Central revelam crescimento explosivo das linhas de crédito com desconto em folha nas empresas e para os aposentados, os quais já atingem a quase 18 bilhões  de  Reais,  o

que corresponde a 32,7% do total de financiamento pessoal oferecido pelas instituições financeiras.

Dentre as razões para expansão dessas linhas de crédito destaca-se seu custo mais favorável, da ordem de 37% a 40%, enquanto nas linhas de financiamento de pessoa física elas podem atingir a mais de 90% ao ano. Outro atrativo é o prazo longo dos empréstimos consignados, no geral até 24 meses, o que resulta em prestações mais baixas do que qualquer outra forma de financiamento. Uma terceira razão é facilidade para a obtenção do crédito, inclusive sem consulta aos cadastros como o SCPC, o que permite que, mesmo quem esteja negativo nesse ou noutro banco de dados, possa ser atendido.

Para os Bancos essa linha de financiamento oferece segurança na medida em que o valor das prestações é descontado em folha, ou da aposentadoria, com risco zero de inadimplência, embora somente esse fator não seja suficiente para explicar a grande diferença de taxas de juros com relação às operações normais de crédito. Embora possa ser uma linha com menor custo burocrático e de busca do cliente, parece que um dos fatores que ajuda explicar as diferenças de taxas é a forte concorrência entre os bancos no crédito consignado.

O grande risco que se coloca para os trabalhadores e aposentados é o de que essa facilidade pode levar a um certo descuido no endividamento, especialmente porque o limite de comprometimento da prestação pode chegar a 30% da renda mensal. Como a parcela não comprometida do rendimento nas faixas de menor renda é inferior a 10% de sua renda, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE, esse limite se afigura muito elevado e, se for utilizado por muitos financiados, irá provocar sérias dificuldades para os mesmos, especialmente na medida em que seus ganhos não acompanharem a elevação do custo de vida. Nesse caso, como as prestações são descontadas em folha, a renda líquida do trabalhador poderá se tornar insuficiente, o que acarretará inadimplência de outros compromissos. É interessante constatar que muitos trabalhadores estão tomando o crédito consignado para quitar outros débitos, o que é bastante interessante, especialmente nos casos de cartão de crédito e cheque especial, cujos juros são muito altos e capitalizados mensalmente. Também se constata que alguns utilizam os recursos essas linhas para ajudar terceiros, no geral parentes, inclusive para "limpar o nome ". Isso pode ser constatado em pesquisa realizada pelo Instituto de Economia "Gastão Vidigal " da Associação Comercial de São Paulo junto a inadimplentes que procuram o SCPC da entidade na segunda quinzena de maio, a qual revelou que 10% dos entrevistados que pretendem quitar seus débitos vão utilizar o crédito consignado, sendo que 40% deles, ou 4% do total dos pesquisados, devem se valer de rec ursos de terceiros. Segundo a pesquisa, 65% devem usar recursos de suas rendas normais, isto é, cortando outros gastos, e 25% fontes adicionais como FGTS, 13 º salário, etc.

Para o comércio e as instituições financeiras será necessário muita cautela para conceder financiamento a pessoas que possam estar endividadas no crédito consignado, sendo necessário analisar sua renda líquida, e não a bruta.

As perspectivas ainda são favoráveis para o crescimento do volume de crédito consignado, embora com taxa de expansão menor do que a verificada até o momento, tanto em função da maior base de comparação, como porque muitos dos que pretendiam se valer dessas linhas já o fizeram. De qualquer forma ainda deverá contribuir para o crescimento do volume de financiamentos, em contradição com o objetivo visado pelo Banco Central ao elevar a taxa SELIC, que é o de conter o crédito para desacelerar o consumo, em consonância com a políticas de "Metas de Inflação "que adota. Essa contradição aumenta na medida em que está sendo anunciada um linha de crédito consignado vinculada à compra de bens, especialmente eletrodomésticos, o que poderá aumentar o consumo.

Se o Banco Central começar a reduzir a SELIC é provável que vá se reduzindo a diferença entre as taxas das linhas de crédito consignado e as demais.


Artigo para o portal ACSP - 29/06/05 
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