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Economistas vêem risco de calote com

 
19/05/2005
 

Economistas vêem risco de calote com "bolha" do crédito consignado
Janes Rocha De São Paulo

A "bolha" do crédito consignado pode estar próxima de explodir. A opinião é dos economistas Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e Alberto Borges Mathias, da ABM Consulting. Contra a opinião do governo e de muitos analistas, Solimeo e Mathias disseram ontem, durante palestra promovida pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), que o forte crescimento do crédito consignado pode se transformar em mais uma crise de inadimplência à frente, ao invés de combustível de um novo ciclo de desenvolvimento.

Sem uma recuperação da renda efetiva na mesma velocidade, os empréstimos com desconto em folha podem se tornar impagáveis, à medida que a capacidade de endividamento dos tomadores, principalmente funcionários públicos e aposentados do INSS, estaria chegando ao limite. Dados apresentados pelo economista Fernando Blumenschein, coordenador de projetos da Fundação Getulio Vargas do Rio (Ibre/FGV-Rio), subsidiaram a tese.

Utilizando a Pesquisa de Orçamento Familiar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (POF/IBGE), Blumenschein mostrou que a disponibilidade de recursos da população das classes C, D e E para outras despesas que não o essencial (habitação, alimentação, transportes, saúde e educação) não passa de 9,5% da renda bruta. Com o crédito consignado as pessoas podem comprometer até 30% da renda bruta.

"A perspectiva de risco no crédito consignado é maior do que nos outros empréstimos", afirmou Mathias, que vê no endividamento para troca de dívidas um processo prévio à "explosão da insolvência". Solimeo acrescentou que a inadimplência subiu em abril, mas ainda não de forma preocupante, já que o indicador acompanhou o aumento do volume de crédito como um todo.

Porém, disse o economista da ACSP, após seis meses consecutivos de alta da taxa de juros básica (Selic), as empresas começaram a ficar mais refratárias à renegociação das dívidas. Com isso, "o nível de recuperação de crédito começa a baixar, depois de um longo período de crescimento (da renegociação de dívidas e "limpeza" dos cadastros negativos) que começou com a liberação dos recursos do FGTS" (referindo-se ao pagamento da diferença de correção monetária iniciada no governo anterior, por decisão da Justiça).

A alta dos juros é o dado que coloca dúvidas sobre a sustentabilidade do endividamento das pessoas físicas. "Temos uma situação em que você aumenta a taxa de juros mas a demanda não é fortemente afetada. Até que ponto isso é sustentável?" questiona Solimeo. Citando o principal indicador do comércio paulista, as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), Solimeo alertou que o ritmo de consultas está em seu ponto mais alto dos últimos anos (veja gráfico acima) acompanhando o ritmo da economia, à exemplo do que aconteceu em outros períodos de expansão.

Solimeo lembrou ainda de uma ameaça que paira sobre o empréstimo consignado: uma ação que está para ser julgada no Supremo Tribunal Federal, questionando a penhorabilidade do salário para pagamento de empréstimos. "Se o Supremo decidir que o salário é impenhorável, todos estes contratos vão por água abaixo", alertou. Para Mathias e Solimeo, as pessoas que entraram no consignado para substituir dívidas caras por outras de juros mais baixos, já começam a acumular débitos e, se houver uma crise, podem até pagar o consignado mas vão deixar de pagar outros empréstimos, o que pode ser uma catástrofe para bancos, financeiras e comércio.

Nem todos partilharam dessa visão. Adalberto Savioli, diretor do Banco Panamericano, acredita que essa possibilidade é remota "porque o perfil de risco de crédito melhorou". Erico Sodré, da Financeira Omni (e presidente da Acrefi), acha que esse é um risco limitado às carteiras de crédito pessoal. Para o economista Adriano Pitoli, da consultoria Tendências, o crédito vai desacelerar antes mesmo de provocar uma crise de inadimplência. Pitoli prevê para 2005 uma expansão real (descontada a inflação) de 12% do volume total de empréstimos, bem menos que os 19,5% registrados em 2004. Para ele, a alta dos juros reduz o espaço para comprometimento da renda dos possíveis devedores.


 

 
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